CORPOS-TERRITÓRIOS EM DISPUTA: o impacto invisibilizado das eólicas nas mulheres do Nordeste
Por Bianca Cavalcanti do Nascimento, Pesquisadora da EmpoderaClima
Qual a régua utilizada para medir o desenvolvimento e o progresso? Ou talvez, o melhor seria questionar para quem esse futuro do Brasil é moldado? Pelas palavras do filósofo brasileiro Aílton Krenak:
"O progresso e o desenvolvimento que somos incentivados a entender como bem-estar no mundo todo... O que é preciso sustentar? A ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos." (Ailton Krenak, no livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, 2019)
A coexistência dos inúmeros Brasis é constantemente o preço que se paga para esse hipotético progresso sustentável. De maneira questionável, essa lógica sócio-econômica é perceptível de maneira enfática ao contexto dos grandes oligopólios de parques eólicos no nordeste do Brasil.
Enquanto comemora-se recordes de energia eólica - vendida como energia limpa, sem quaisquer impactos socioambientais - o avanço para a transição energética e as metas de descarbonização, mulheres do Agreste pernambucano (e demais regiões do nordeste) enfrentam insônia, adoecimento e perda de autonomia econômica por causa dos parques que cercam suas casas.
Nos últimos anos, o Nordeste tornou-se a vitrine da energia limpa do Brasil, uma região agraciada por privilégios geoespaciais. Torres girando na linha do horizonte, contratos bilionários, empresas estrangeiras, discursos da política internacional e interna de que o país finalmente encontrou seu “caminho verde”. Mas há uma pergunta que quase nunca aparece nas manchetes: limpa para quem?
Fonte: Cidade de Caetés/PE, predominantemente na Caatinga. Foto original de Bianca Cavalcanti em atividade para a Clínica de Direitos Humanos aSIDH UFPE (Acesso ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos), 2026.
Em municípios como Caetés, no Agreste de Pernambuco, quem convive todos os dias com os parques eólicos responde bem diferente do que aparece nos relatórios de sustentabilidade das empresas ou nos grandes veículos midiáticos.
E, a partir da leitura de movimentos feministas e agroecológicos da América Latina, o termo corpo-território sintetiza a exploração no nordeste brasileiro. De maneira simples, a (neo)colonização, patriarcado e capitalismo nunca atingem apenas a terra ou apenas as pessoas, eles atingem os dois ao mesmo tempo, porque há uma simbiose com o território. Ao atingir os dois ao mesmo tempo, o corpo das mulheres, em sua maioria negras e em contexto de vulnerabilidade socioeconômica, costumam carregar maior peso dessa dupla violência.
As mulheres camponesas em sua jornada, muitas vezes tripla, cuidam da casa, da roça, dos filhos e dos animais, são as que sentem, no corpo e no cotidiano, o peso de uma transição energética que para muitas comunidades não tem nada de justa.
O Paradoxo Verde: A Perda do Território Feminino
A transição energética é hoje tratada como algo inquestionável e, de fato, a sociedade internacional precisa urgentemente deixar de depender de combustíveis fósseis. E o Brasil, com sol e vento de sobra, se tornou protagonista dessa discussão internacional. Então, o problema não é a energia renovável em si, mas o modelo exploratório e meramente mercadológico, sustentado por um punhado de grandes grupos econômicos, muitos deles dependentes de capital estrangeiro, que trata o Nordeste como fronteira de negócio, não como lugar vivo e diverso.
Na prática, a expansão das eólicas no Nordeste tem repetido uma lógica muito antiga: tratar territórios rurais e tradicionais como espaço vazio (cabe um adendo, o vazio é trazido em aspectos culturais, sociais, econômicos, ecossistêmicos), disponível para os interesses de quem está de fora. A literatura chama isso de colonialismo verde ou colonialismo energético, ou seja, comunidades inteiras tornam-se descartáveis em nome de interesses econômicos do tão famoso “progresso e desenvolvimento” e metas internacionais de descarbonização que elas nunca ajudaram a definir, consolidando este território como zona de sacrifício.
O panorama dos oligopólios dos parques eólicos evidencia a enorme diferença entre uma transição energética técnica, pensada para gerar lucro e, consequentemente, cumprir metas de carbono, e uma Transição Energética Justa, que exige três coisas: responsabilização equitativa, repartição equilibrada dos custos e os benefícios, e a co participação real da população local nas decisões sobre energe, sem direcionar o prejuízo para quem já tem menos poder de negociação.
É essa segunda transição que ainda não chegou a Caetés ou ao Nordeste brasileiro.
Créditos: Mikhail Nilov
O Barulho Que Não Deixa Dormir: O Adoecimento Silencioso e a Carga do Cuidado
Quem nunca morou perto de um aerogerador dificilmente imagina o que é conviver, 24 horas por dia, com o som mecânico e contínuo das pás girando. Moradoras da região descrevem noites em que a única forma de dormir é com tampões nos ouvidos. Insônia crônica, ansiedade, depressão e hipertensão aparecem com frequência nos relatos, sintomas que parte da literatura já reúne sob o nome de síndrome da turbina eólica. Em uma ida a campo ao território de Caetés, em menos de 24h, já foi possível sentir fisicamente algumas dessas consequências, a dor de cabeça aguda e irritabilidade são os primeiros indicadores.
O impacto não para nas pessoas. Animais estressados pelo ruído constante produzem menos leite e menos ovos, abelhas e pássaros somem da região, o que atinge diretamente a agricultura de subsistência e a agroecologia, formas de produzir alimento que sustentam boa parte dessas famílias de maneira geracional.
E é aqui que a carga recai. Em famílias rurais nordestinas, é majoritariamente a mulher quem cuida de quem adoece - desde a criança que não dorme ao idoso que fica mais ansioso -. Ao adoecer a casa inteira com os ruídos das turbinas, o trabalho de cuidado (não remunerado, invisível nas estatística e imprescindível para a construção social atual) se multiplica e, consequentemente, a casa vira uma fonte maior de adoecimento e é a mulher quem segura essa casa em pé, muitas vezes sozinha, com seu corpo e mente.
Quando o vento leva o “projeto de vida”
Existe, no direito internacional dos direitos humanos, um conceito pouco explorado fora Sistema Interamericano de Direitos Humanos, mas extremamente potente para entender o que acontece no Nordeste: o dano ao projeto de vida, reconhecido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. O conceito surge no julgamento do caso Loayza Tamayo vs. Peru na Corte Interamericana de Direitos Humanos quando a Corte entende que há violações que causem dano ou limitam a faculdade de escolher a forma da sua própria existência, comumente aplicado ao projeto de vida coletivo, como o caso brasileiro Quilombolas de Alcântara.
A ideia é simples de explicar, ainda que difícil de reparar: quando alguém sofre uma lesão tão profunda que perde a liberdade de seguir o caminho que havia escolhido para a própria vida, esse dano vai muito além do prejuízo material. É a frustração do futuro que a pessoa vinha construindo, futuro este que pode também ser construído de maneira coletiva.
Nas zonas rurais impactadas, isso acontece de forma concreta. Contratos de arrendamento pouco claros, muitas vezes assinados sem que as famílias entenderem de fato o que estavam autorizando, resultam no cercamento das terras e na instalação de estruturas industriais no meio de onde antes havia roça, criação e vida comunitária. Famílias que planejavam continuar cultivando a terra, criando os filhos ali, envelhecendo naquele lugar, se veem empurradas para o êxodo rural.
Ao trazermos a perspectiva de gênero, esse rompimento passa a ter um peso peculiar. Os saberes ancestrais e geracionais, como quais plantas curam o quê, quando plantar, como criar animais pequenos, passa de mãe para filha, de avó para neta. Então, quando o quintal desaparece e as famílias são forçadas a migrar, não se perde apenas o vínculo com a terra, mas também o vínculo com a própria identidade, se rompe. O projeto de vida coletivo, feminino, se rompe junto com a cerca e perde-se uma linha de transmissão de saber e de autonomia construídos ao longo de gerações de mulheres.
Os quintais das mulheres: corpo e território em disputa
É aqui que a dimensão de gênero se torna impossível de ignorar. Nas comunidades rurais do Nordeste, os quintais produtivos, os espaços ao redor de casa onde se cultivam hortaliças, plantas medicinais e se criam pequenos animais, são historicamente territórios de autonomia das mulheres. É ali que muitas garantem renda própria, segurança alimentar para a família e um espaço de decisão que não depende de ninguém.
Quando o parque eólico chega, esses quintais são os primeiros a desaparecer, seja pelo barulho, pelo cercamento das terras ou pela reorganização forçada do espaço doméstico. Perder o quintal não é só perder produção: é perder autonomia econômica, é perder um lugar de poder dentro da própria comunidade.
Não por acaso, movimentos como o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), organizado também em Pernambuco e em todo o Nordeste, usam exatamente a expressão corpo-território para descrever sua luta: a defesa da terra e a defesa do próprio corpo são, para essas mulheres, a mesma pauta. Quando o território é invadido, o corpo da mulher que depende dele também é.
Da transição verde para a transição justa
Nenhum desses impactos é inevitável. Eles são resultado de escolhas, sobre como negociar contratos, sobre quem senta à mesa das decisões, sobre que tipo de consentimento se considera válido e, principalmente, sobre quem é ouvido e quem é apenas “informado”.
Encarar a transição energética como um processo de descolonização significa exigir que a reparação, quando houver dano, não se resuma a indenização financeira. Significa reconstruir de fato os projetos de vida interrompidos e respeitar a soberania das comunidades sobre seus próprios territórios, antes, durante e depois da instalação de qualquer empreendimento. Essa movimentação será descrita como parte de um giro eco territorial latino-americano, de acordo com a socióloga argentina Maristella Svampa, momento em que uma consolida-se nova matriz de resistência social que já não separa a defesa da terra, da defesa de valores feministas, indígenas e comunitários.
Vale lembrar: as mulheres do Agreste pernambucano não são apenas vítimas dessa história, mas sim protagonistas da defesa da terra e da Transição Energética Justa. Iniciativas como a Escola dos Ventos e o Movimento de Mulheres Camponesas mostram que essas comunidades já estão se organizando, produzindo conhecimento sobre o próprio território e disputando, palmo a palmo, o direito de decidir o que "energia limpa" deveria significar para quem vive dela, e não apenas dos lucros dela.
A transição energética que o mundo precisa não pode ser construída às custas do silêncio das mulheres que sustentam a vida no campo. Ouvir essas vozes não é um detalhe da transição justa: é a própria condição para que ela exista.