Por Luiza Vieira Caleia, Pesquisadora da EmpoderaClima
No dia 24 de fevereiro de 2026, a estação meteorológica de Juiz de Fora registrou sua maior chuva: 138,8 mm. A média das precipitações no mês de fevereiro é de 184,8 mm; portanto, em apenas um dia, choveu cerca de 75% do esperado para todo o mês. O volume acumulado daquele mês tornou fevereiro de 2026 o mês mais chuvoso da história da cidade, com 752,4 mm registrados.
Os números ajudam a dimensionar a força da tragédia. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora, até o dia 1º de março, foram registrados 61 óbitos, 8.584 pessoas desabrigadas e desalojadas e 2.936 ocorrências pela Defesa Civil. Tratava-se do maior desastre ambiental já registrado na cidade. Para quem vive em Juiz de Fora, porém, esses números não representam apenas estatísticas.
Como residente da cidade, vivenciar tudo isso foi traumático. Ao abrir o mapa das zonas de risco, eu identificava locais onde estavam meus colegas de escola e passei a noite enviando mensagens para verificar se estavam seguros. Nos dias seguintes, estive nas ruas apoiando a população com a distribuição de itens necessários para o período pós-desastre. Em um dos momentos que mais me marcou, ao voluntariar-me em um abrigo, decidi brincar com as crianças. Foi profundamente impactante perceber o quanto algumas delas ainda não conseguiam compreender o que havia acontecido. Aos poucos, fui entendendo a dimensão da tragédia e o quanto ela havia sido especialmente dura para as crianças.
O impacto não se restringiu à perda de casas e pertences. A região do bairro Paineiras, situada abaixo do Morro do Cristo, registrou a descida de lama e pedras de grande porte devido à saturação do solo. Uma família composta por uma idosa, sua filha e duas crianças, de 4 e 6 anos, ficou sob os escombros de um desabamento no bairro Paineiras. Em outros pontos da cidade, mães moradoras de regiões fortemente afetadas, como o bairro Barreira do Triunfo, relataram que as crianças permaneceram em estado constante de choque depois de presenciarem a força da água invadindo suas residências. Em depoimentos cedidos à imprensa, algumas crianças passaram a manifestar forte resistência e a se recusar a voltar para casa, preferindo dormir na casa de parentes por causa do medo de novas tempestades.
O trauma também atingiu crianças que presenciaram os estrondos provocados por quedas de barrancos e desabamentos de casas vizinhas. Algumas passaram a necessitar de acompanhamento psicológico urgente para lidar com crises de ansiedade. A tragédia, portanto, não terminou quando a água baixou ou quando os escombros foram retirados. Para muitas pessoas, o desastre continuou presente na forma do medo, da insegurança e da dificuldade de retornar à rotina.
Um dos casos mais comoventes ocorreu no bairro Parque Jardim Burnier, onde um menino de apenas três anos sobreviveu a um soterramento completo. A criança foi salva porque sua mãe o abraçou e usou o próprio corpo como escudo no momento em que o barranco desmoronou sobre a residência. A mãe, infelizmente, não resistiu, deixando o menino órfão em meio ao cenário de devastação.
No balanço geral, doze crianças morreram, ou seja, quase ⅕ das vítimas. Entre elas estava um aluno do 7º ano do Colégio de Aplicação João XXIII. Sua mãe e irmã, estudante do 2º ano do ensino médio da mesma escola, foram socorridas. Além disso, ao menos três alunos da Escola Estadual Batista de Oliveira. Diante da tragédia, as aulas na instituição foram suspensas até a sexta-feira, 27 de fevereiro. Outras crianças identificadas eram alunas da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves. No bairro Paineiras, um menino, de 10 anos, continuava sendo procurado no sábado, 28 de fevereiro. Ele estava em uma casa que havia sido soterrada durante um deslizamento. A mãe do menino, o namorado dela, a avó e a irmã de 6 anos, também foram soterrados e não resistiram; os quatro corpos já haviam sido localizados.
As perdas também foram vivenciadas por mães adolescentes e jovens. Em um depoimento amplamente divulgado, uma jovem de 18 anos descreveu a dor de perder simultaneamente a filha de 2 anos e a própria mãe, depois que um raio atingiu a fiação e provocou uma avalanche que soterrou a casa enquanto a bebê dormia.
Enquanto famílias perdiam suas casas, escolas onde os jovens estavam acostumados a viver seu cotidiano foram transformadas em abrigos. A Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves, no bairro Bom Jardim, foi uma das 15 unidades da rede municipal transformadas em abrigo. O espaço se tornou referência no acolhimento de pessoas que haviam perdido suas casas, seus pertences e sua sensação de segurança. Segundo a vice-diretora Laurisa Barreto do Nascimento, o trabalho coletivo foi essencial para atravessar os dias mais difíceis. Ao mesmo tempo em que a escola abriu suas portas para dezenas de pessoas, ela própria enfrentava o luto pela perda de seus alunos.
Juan Moccagatta
“Foi uma perda que nos marcou muito. Pelo convívio diário, pela idade dessas crianças, ainda não conseguimos viver esse luto. Estamos o tempo todo em movimento dentro da escola, mas basta olhar para os espaços, para os cantinhos, para que a memória venha. Não tem como não lembrar”, disse Laurisa Barreto do Nascimento.
Para reduzir o impacto emocional sobre as crianças, professores e voluntários criaram espaços lúdicos dentro dos abrigos. Brinquedos, tintas, pincéis, papéis e atividades recreativas passaram a fazer parte desses espaços, oferecendo às crianças oportunidades de brincar e, aos poucos, lidar com o medo provocado pelo desastre.
O que aconteceu em 2026 também se insere em uma história mais longa de tragédias relacionadas ao relevo, às chuvas e à vulnerabilidade urbana de Juiz de Fora. Em 10 de janeiro de 2004, o desabamento de um barranco sobre uma casa matou quatro pessoas da mesma família: três crianças, de 4 meses, 3 e 11 anos, e o pai. A repetição de episódios desse tipo demonstra que a vulnerabilidade não é um fenômeno completamente novo, embora a crise climática aumente a urgência de enfrentá-la.
Para uma cidade como Juiz de Fora, o desafio é especialmente crítico. O município possui relevo acidentado, solo encharcado pelas tragédias recentes, infraestrutura de drenagem colapsada e uma população deslocada. Cerca de um em cada quatro moradores de Juiz de Fora, ou quase 130 mil pessoas, vive em áreas consideradas de risco para deslizamentos e inundações.
Essa realidade também precisa ser compreendida dentro de um cenário nacional. Cerca de 40 milhões de crianças no Brasil, o equivalente a 60% da população infantil, estão expostas simultaneamente a mais de um risco climático, como calor extremo, enchentes, seca ou poluição. Para crianças e adolescentes que são forçados a se deslocar por causa de desastres naturais ou da degradação ambiental, as consequências podem se estender para além do próprio desastre. Muitas vezes, essas pessoas perdem o acesso à escola por causa da falta de documentos ou da insegurança na nova região.
A própria infraestrutura escolar também revela desigualdades. Muitas escolas públicas localizadas em áreas vulneráveis não possuem estrutura adequada para lidar com os efeitos da crise climática, como o calor extremo, ao contrário de muitas escolas privadas. Eventos extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, têm provocado o fechamento de unidades escolares com maior frequência, afetando diretamente o direito à educação.
O que deveria estar acontecendo há décadas é planejamento. Enquanto o El Niño avança sobre o Sudeste, a vulnerabilidade de uma região inteira continua sendo negligenciada pela falta de estruturas de governança climática que funcionem. Em uma cidade na qual uma parcela tão significativa da população vive em áreas de risco, a preparação para eventos extremos não pode começar apenas depois que eles acontecem.
Essa preparação precisa considerar, sobretudo, as crianças das periferias urbanas e outros grupos que enfrentam maior vulnerabilidade. Nesse sentido, o Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres constitui um instrumento orientador que reúne recomendações para o desenvolvimento e a implementação de ações de proteção antes, durante e depois de desastres. O documento propõe diretrizes intersetoriais e setoriais voltadas aos sistemas de proteção e defesa civil, saúde, assistência social, educação, justiça, direitos humanos e conselhos tutelares, reforçando o dever do Estado de assegurar os direitos de meninas e meninos em todas as circunstâncias.
Fawaz Onakoya
Proteger crianças diante da crise climática, entretanto, não significa apenas agir depois de um desastre. Significa também prepará-las para compreender, participar e responder às transformações que já estão acontecendo. A Ação para o Empoderamento Climático, conhecida como ACE, é um conceito adotado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima para capacitar a sociedade a participar ativamente das soluções para a crise climática. Crianças não devem ficar de fora desse processo.
A educação climática precisa ser incorporada às escolas e às próprias diretrizes de ensino, acompanhada de treinamento e de acesso à informação. Dados sobre riscos climáticos devem ser transparentes e apresentados de maneira que crianças e comunidades possam compreender. Saber quais são os riscos, onde eles estão e como agir diante deles é parte essencial da construção de uma sociedade preparada para eventos extremos.
Nas escolas, a educação climática pode ser inserida de forma transversal e prática. Hortas escolares, por exemplo, podem aproximar os estudantes de temas relacionados ao meio ambiente, enquanto uma arquitetura escolar resiliente e sustentável pode incorporar áreas verdes e boa ventilação. A escola, nesse sentido, deixa de ser apenas um espaço de transmissão de conhecimento e passa também a ser parte da infraestrutura de adaptação climática da comunidade.
O contato direto com a natureza também pode desempenhar um papel importante. Estimular o aprendizado ao ar livre pode contribuir para reduzir a ansiedade climática e, ao mesmo tempo, transformar crianças em defensoras do meio ambiente. A relação com a natureza não precisa ser apenas uma ferramenta pedagógica; ela também pode ajudar crianças a compreenderem que são parte dos ecossistemas que precisam ser protegidos.
Por fim, proteger crianças diante da crise climática exige escuta ativa. Milhões de crianças estão expostas a riscos climáticos no Brasil, e suas prioridades precisam ser consideradas em fóruns, políticas públicas e planos locais de adaptação. Crianças não são apenas vítimas ou beneficiárias de políticas climáticas: elas também são parte das comunidades que vivenciam os riscos. Essa proteção é um direito previsto na justiça intergeracional, princípio ético e jurídico que garante a equidade e a partilha justa de recursos, direitos e deveres entre diferentes gerações.
A experiência de Juiz de Fora mostrou, de maneira dolorosamente concreta, que a crise climática não é apenas uma questão de temperaturas, chuvas ou mapas de risco. Ela atravessa famílias, escolas, relações comunitárias, saúde emocional e o direito fundamental de uma criança de aprender, brincar e sentir-se segura. Quando uma escola precisa se transformar em abrigo, quando crianças têm medo de voltar para suas casas e quando professores precisam conciliar o acolhimento de famílias com o próprio luto, o desastre deixa de ser apenas um evento ambiental. Ele se transforma em uma crise social, educacional e humana.
Por isso, a resposta não pode ser construída somente depois da próxima chuva. Ela precisa começar antes, por meio de planejamento urbano, governança climática, proteção social, infraestrutura resiliente, educação climática, acesso à informação e participação efetiva de crianças e adolescentes. Em Juiz de Fora, onde aproximadamente um quarto da população vive em áreas de risco, preparar-se para o próximo desastre não é uma possibilidade distante. É uma responsabilidade urgente. E, nessa preparação, proteger e ouvir as crianças precisa deixar de ser uma preocupação secundária para se tornar parte central da resposta à crise climática.