Quem decide sobre o clima?

A importância da representação política ecofeminista para a promoção da justiça climática no Brasil 

Por Maïra de Roussan, Yasmin Soares e Camila Rocha

Foto: Chico Batata / TRE-AM

O paradoxo da democracia brasileira 

À medida que as eleições de 2026 se aproximam, o debate sobre quem ocupará os espaços de poder e de tomada de decisão no Brasil ganha ainda mais relevância. Este é um momento de reflexão sobre quem deve ocupar cargos de tomada de decisão no país, tanto no nível estadual quanto no nível nacional

Apesar de representarem cerca de 53% da população votante brasileira, as mulheres continuam sub-representadas em cargos eletivos. A desigualdade também se evidencia na disputa pela Presidência da República, visto que, até hoje, o Brasil elegeu apenas uma mulher para o cargo, enquanto, nas eleições de 2026, há duas candidaturas femininas entre as treze candidaturas registradas para a Presidência.  

No âmbito do Poder Legislativo, os números também evidenciam a persistência dessa desigualdade. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 34,85% das candidaturas pleiteadas em eleições legislativas estaduais, distritais ou federais são de mulheres, totalizando 7.165 candidatas, em um total de 20.560 candidatos.  

Esses dados, contudo, não dizem respeito apenas à quantidade de mulheres que chegam às urnas ou ocupam cadeiras no Parlamento. Eles revelam uma questão fundamental para a democracia: quem está efetivamente representado nos espaços onde são tomadas decisões que impactam a vida de toda a população? 

Essa pergunta torna-se ainda mais urgente diante da emergência climática. A mudança do clima não afeta todas as pessoas da mesma maneira. Seus impactos se sobrepõem às desigualdades sociais, econômicas, raciais e de gênero já existentes, atingindo, de forma desproporcional, populações em situação de maior vulnerabilidade, principalmente mulheres pretas e periféricas. Decisões relacionadas à transição energética, ao uso e à ocupação do território, à mobilidade, à moradia, ao saneamento e à proteção dos recursos naturais são, portanto, também decisões sobre quem terá acesso a direitos, proteção e condições dignas diante da crise climática. 

É nesse contexto que a representação política de mulheres comprometidas com a agenda feminista e climática assume importância estratégica. A perspectiva ecofeminista contribui para compreender a crise climática não como um fenômeno exclusivamente ambiental, mas como uma questão profundamente relacionada às estruturas de poder, às desigualdades e à distribuição de recursos e de riscos na sociedade. 

Por isso, discutir quem decide sobre o clima é também discutir quem está presente nos espaços de poder e quais perspectivas orientam as decisões sobre o futuro climático do país. Nesse sentido, o presente artigo busca analisar em que medida a representação política ecofeminista pode contribuir para a promoção da justiça climática no Brasil.

Mais do que perguntar quantas mulheres estarão nas urnas em 2026, é necessário questionar quais mulheres chegam aos espaços de decisão, quais agendas defendem e quais projetos de sociedade orientam sua atuação política. Afinal, ampliar a representação feminina não significa apenas aumentar sua presença numérica na política, mas também criar condições para que diferentes experiências e demandas sejam incorporadas à formulação de políticas públicas. É nesse sentido que o fortalecimento de uma representação política comprometida com as perspectivas ecofeministas pode contribuir para uma democracia mais representativa e para respostas à crise climática orientadas pela justiça climática e de gênero.

Por que eleger mulheres importa?

Celina Guimarães Viana foi a primeira mulher à votar no Brasil nas eleições municipais de Mossoró (RN), por conta de uma decisão estadual, em 5 de abril de 1928. Autor desconhecido / Acervo da Prefeitura de Mossoró.

A primeira vez que as mulheres brasileiras puderam votar foi após 1932, com a publicação do primeiro Código Eleitoral, seguida pela segunda Constituição da República de 1934, que garantiu às mulheres direitos políticos. Entre 1998 e 2022, as candidaturas de mulheres à Câmara dos Deputados cresceram 925%, enquanto o aumento de eleitas para o mesmo cargo foi de apenas 210%. Nas eleições de 2022, as mulheres conquistaram apenas 17,5% das cadeiras da Câmara dos Deputados. Esses dados ilustram que, apesar do aumento no número de candidaturas, o número de mulheres eleitas ainda é pequeno em relação ao seu peso populacional. Esses números refletem desafios importantes enfrentados por candidatas, incluindo o acesso desigual ao financiamento de campanha, a exclusão sistemática de mulheres dos cargos de decisão nos partidos e as candidaturas ditas “laranjas” femininas.  

Esse cenário nos leva a uma distinção de extrema importância para compreender a participação feminina na política: a representação descritiva e a substantiva

  • Representação descritiva: refere-se a quem ocupa os espaços de poder, neste caso, à proporção de mulheres em cargos eletivos. 

  • Representação substantiva: diz respeito à tomada de decisão alinhada ao grupo que representa, neste caso, à defesa de políticas voltadas aos direitos das mulheres. 

Vale ressaltar que ser mulher não é uma experiência única nem homogênea, o que significa que mulheres eleitas não necessariamente tomam decisões de acordo com as demandas dos movimentos feministas ou com foco em pautas de gênero. Essa distinção se torna ainda mais fundamental quando incorporamos as dimensões de raça, classe, sexualidade e identidade de gênero. Cada mulher carrega múltiplas identidades que influenciam suas experiências e a forma como vivenciam as desigualdades de gênero e o acesso aos próprios espaços de poder. Por isso, observar apenas o número total de mulheres eleitas pode ocultar desigualdades importantes na própria representação feminina.

Ainda assim, a teoria de Política de Presença, desenvolvida por Anne Philips (uma teórica política britânica, referência nos estudos sobre gênero e representação política), estabelece uma conexão fundamental entre as duas formas de representação ao argumentar que as próprias mulheres estão melhor posicionadas para representar seus interesses na esfera política. Nessa perspectiva, ampliar a representação descritiva também pode contribuir para fortalecer a representação substantiva. Há evidências na América Latina de que a presença de mulheres nesses espaços pode fazer diferença. Uma pesquisa publicada na Revista Estudos Feministas, que analisou 10.753 proposições legislativas apresentadas na Câmara dos Deputados entre 2015 e 2017 no Brasil, identificou que, apesar de representarem uma parcela pequena dos parlamentares (em média, 17%), as deputadas apresentaram uma atuação legislativa mais ativa e, proporcionalmente à sua presença na Câmara, transformaram em norma jurídica três vezes mais projetos do que os homens. O estudo também mostra que temas ligados aos direitos humanos e às minorias foram majoritariamente associados à atuação das mulheres, com 16,51% dos projetos das mulheres tratando desse tema e apenas 6,54% dos projetos dos homens abordando o mesmo eixo temático.

Mesmo sabendo que a presença de mulheres nos espaços de poder não garante, por si só, a defesa de pautas de gênero, os dados indicam que a composição desses espaços pode, sim, influenciar quais temas recebem atenção, prioridade política e recursos financeiros. Mas, para que essa presença se traduza, de fato, em representação substantiva, é importante conhecer quais pautas seus candidatos defendem e quais compromissos assumem. Mais do que votar em mulheres, é preciso entender quais mulheres estamos elegendo e quais interesses elas se propõem a representar. 

Carlota Pereira de Queirós, Primeira Deputada Federal eleita. Participou da Assembleia Constituinte de 1934–1935. Imagem de domínio público. Acervo da Agência Senado

O déficit de representação ecofeminista nas políticas climáticas e o papel do voto na construção da mudança

Para compreender a relevância de políticas públicas que articulem as dimensões climáticas e de gênero, é necessário considerar o papel do ecofeminismo nos processos de tomada de decisão, inclusive no exercício do voto e na escolha dos representantes políticos. Essa corrente defende a preservação ambiental e estabelece uma relação entre a degradação dos ecossistemas e as estruturas históricas de desigualdade que afetam as mulheres, reconhecendo que estas estão entre os grupos mais vulnerabilizados pelos efeitos da crise climática. Nessa perspectiva, a promoção dos direitos femininos também se relaciona à preservação de seu entorno e das condições ambientais em que estão inseridas, compreendendo a sustentabilidade de maneira ampla e integrada, e não restrita a determinados segmentos sociais.

Mas, como construir políticas públicas capazes de responder às desigualdades de gênero e aos impactos diferenciados da crise climática quando o espaço parlamentar permanece majoritariamente ocupado por homens, brancos e privilegiados economicamente? 

A ausência de um Plano de Ação de Gênero (GAP - The Gender Action Plan) efetivo nas políticas climáticas do Brasil não se limita à questão de quantas mulheres estão em ambientes decisórios, mas envolve, sobretudo, quem vivencia os impactos da crise e quem participa da elaboração das medidas destinadas a enfrentá-los. Quando pessoas submetidas de forma mais intensa aos efeitos dos eventos extremos não encontram adequada inserção nos espaços deliberativos, perpetuam-se padrões históricos de dominação e desigualdade que constituem, justamente, uma das principais críticas formuladas pelo pensamento perpetuam-se padrões históricos de dominação e desigualdade que constituem, justamente, uma das principais críticas formuladas pelo pensamento ecofeminista

Sob essa ótica, a ampliação de políticas orientadas por princípios ecofeministas mostra-se especialmente relevante, considerando que a agenda climática também é atravessada por déficits de participação e diversidade. Embora a emergência ambiental alcance escala global, suas consequências não incidem de maneira uniforme sobre a sociedade. É possível, portanto, afirmar que o colapso ambiental possui gênero, raça e endereço. Conforme dados levantados pelo Observatório do Clima, o grupo mais vulnerabilizado pelas transformações climáticas extremas é mulheres, especialmente pretas, indígenas e periféricas. 

Em âmbito internacional, o relatório Gender Snapshot 2024, elaborado pela ONU Mulheres, estima que, em razão dos efeitos do aquecimento global, até 2050, 158 milhões de mulheres e meninas poderão estar em situação de pobreza extrema, obtendo um diferencial de 16 milhões a mais em relação ao número total de homens e meninos. Todavia, embora o gênero feminino figure entre os grupos mais vulnerabilizados pelos impactos da crise climática, as mulheres também desempenham papel relevante no enfrentamento desse cenário, uma vez que, em média, demonstram maior preocupação com as questões ambientais e maior adesão a comportamentos favoráveis à preservação do meio ambiente quando comparadas aos homens.

A fim de evidenciar a afirmação, em pesquisa realizada por uma voluntária da Empodera Clima, em conjunto com o Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) e em parceria com o Programa de Mudanças Climáticas da Universidade de Yale, no ano de 2023, fora constatado que as mulheres demonstram maior preocupação com o aquecimento global do que os homens (85% contra 76%). Da mesma forma, elas manifestam, em maior proporção, a percepção de que os efeitos do aquecimento global representam uma ameaça para si e para suas famílias (90% contra 82%). Além disso, 93% das mulheres consideram a crise ambiental um tema importante, em comparação a 90% dos homens. De forma visual, o gráfico abaixo apresenta as principais ações adotadas por mulheres, em comparação aos homens, com o objetivo de contribuir para o enfrentamento e a redução da intensificação dos problemas climáticos.


Gráfico - principais dados analisados na pesquisa

Gráfico 1:  Comparativo entre os gêneros quanto à preocupação com o meio ambiente
Créditos: Imagem extraída da pesquisa de Andreza da Silva Pereira da Conceição, intitulada por “Diferenças de Gênero na Percepção da Crise Climática: uma análise multivariada para o Brasil”, mencionada no site da EmpoderaClima.

Considerando os pontos apresentados ao longo do artigo, os dados analisados evidenciam que o voto consciente pode constituir um importante instrumento para a eleição de representantes comprometidos com pautas feministas, com a justiça climática e com a igualdade de gênero, cooperando para o enfrentamento das desigualdades e para a construção de uma representação política mais efetiva e alinhada às realidades daqueles que permanecem historicamente sub-representados nos espaços de decisão.

Em um mundo com constantes alertas ambientais extremos, sendo o mais recente o fenômeno do Super El Niño, cuja intensidade impõe desafios sem precedentes à sociedade, torna-se cada vez mais urgente compreender o clima como uma questão de humanidade e uma prioridade para a continuidade da vida no planeta. Afinal, enfrentar a crise climática não constitui apenas uma escolha política, mas uma condição essencial para que a humanidade possa assegurar sua própria existência.

Nesse sentido, votar em mulheres e em candidaturas comprometidas com a justiça socioambiental constitui um gesto concreto de redistribuição de poder. Essa escolha, por si só, não será capaz de solucionar décadas de disparidades estruturais, mas pode representar um ponto de partida para conferir visibilidade e espaço de participação àqueles que vivenciam diretamente os efeitos da crise climática nos processos decisórios destinados a enfrentá-la. 

Ante o exposto, para auxiliar o eleitor a conhecer melhor as propostas e os posicionamentos dos candidatos, existem ferramentas como a Votando pelo Clima, que reúne informações sobre a atuação e o posicionamento dos candidatos em relação às questões climáticas e às propostas para seu enfrentamento. A consulta a esse tipo de iniciativa pode contribuir para uma escolha eleitoral mais consciente e, consequentemente, para a construção de uma representação política capaz de aproximar as decisões públicas das demandas relacionadas à justiça climática e de gênero. 

Quem decide sobre o clima?

Sendo assim, a resposta à pergunta chave "quem decide sobre o clima?' está intrinsecamente ligada entre a crise ambiental e o déficit representativo de pessoas interessadas em abordar o tema. A crise climática possui gênero, raça e classe, ou seja, atinge de forma desproporcional as mulheres pretas, indígenas, ribeirinhas e periféricas. Dessa forma, colocar em pauta e trazer uma perspectiva ecofeminista na política pública, não é somente uma bandeira identitária, mas uma questão de ética e estratégia.

Às vésperas do pleito de 2026, reafirma-se o voto consciente como um instrumento fundamental de uma redistribuição de poderes, se tornando um passo indispensável para superar a falta de representação e ausência de um GAP para mitigação de crise climática.

Garantir que quem mais sofre os impactos da crise também ocupe os espaços de decisão é a única via possível para a construção de respostas climáticas efetivas, plurais e verdadeiramente democráticas.

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